1. Como saber se uma leitura é fiel
Na aula passada vimos que Antigo e Novo Testamento contam uma só história: a da promessa, cumprida em Cristo. Daí surge uma pergunta inevitável: se pessoas diferentes abrem a mesma Bíblia e chegam a conclusões diferentes, como sabemos se uma leitura é fiel?
A resposta presbiteriana não é escolher entre a Bíblia e a igreja. A Bíblia reina. A igreja recebe a Palavra, ensina, confessa e se deixa corrigir por ela.
Duas palavras guiam a aula: receber e examinar. Atos 17 mostra por que elas precisam ficar juntas.
“E logo, durante a noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Bereia; ali chegados, dirigiram-se à sinagoga dos judeus. Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim. Com isso, muitos deles creram, mulheres gregas de alta posição e não poucos homens.”
Atos 17.10-12, Almeida Revista e Atualizada
Paulo e Silas chegam a Bereia depois de serem hostilizados em Tessalônica e precisarem sair de lá durante a noite. Na sinagoga, os judeus de Bereia ouvem uma mensagem nova sobre o Messias. Lucas os elogia por duas ações inseparáveis: acolhem a palavra com disposição e conferem a mensagem nas Escrituras. E o versículo 12 mostra o resultado do exame: muitos creem.
Lucas não chama de nobre quem aceita tudo, nem quem desconfia de tudo. Nobre é quem recebe a mensagem e a leva à Escritura.
2. Bereia: receber e examinar
Receber com avidez
A palavra traduzida por “avidez” comunica prontidão e boa disposição. Os bereanos não ouvem Paulo com hostilidade.
Examinar as Escrituras
O verbo traduzido por “examinar” aparece em Lucas e Atos também em investigações e interrogatórios. Aqui ele indica verificação cuidadosa, e não a montagem de um tribunal contra o pregador.
Os bereanos abrem a Escritura contra a mentira, não contra a possibilidade de aprender. Eles têm coração ensinável e Bíblia aberta.
Todos os dias
O exame é diário. Em Tessalônica, Paulo havia argumentado na sinagoga durante três sábados; em Bereia, o contato com a Palavra não fica restrito à reunião semanal.
Para imitar os bereanos, ninguém precisa dominar o grego. Precisa ouvir, reler o texto, conferir o contexto e perguntar se a explicação realmente nasce da passagem.
E o exame dos bereanos não terminou em suspeita, mas em fé: “muitos deles creram”.
Juntos, não sozinhos
Bereia não é um símbolo de independência individual. O texto mostra uma comunidade reunida na sinagoga, ouvindo mestres e examinando em conjunto as Escrituras que o povo de Deus havia recebido.
3. Sola scriptura e os três desvios
Se todo ensino precisa ser conferido na Escritura, qual autoridade a Escritura tem?
“Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens.”
Confissão de Fé de Westminster I.VI
Sola scriptura (“somente a Escritura”) quer dizer que só a Escritura é a regra infalível que julga todas as outras autoridades. Não quer dizer que pastor, professor, igreja, concílio, credo e confissão sejam inúteis. Eles têm autoridade, mas subordinada, e devem ser avaliados pela Palavra.
Há três maneiras de errar nesse ponto:
| Desvio | Onde fica a palavra decisiva | Resposta reformada |
|---|---|---|
| Tradição como fonte paralela | Escritura e tradição como dois canais da revelação, lado a lado | A igreja recebe e transmite a Palavra, mas não acrescenta outra fonte infalível |
| Novas revelações normativas | Uma voz posterior cria doutrina ou dever para a consciência | O Espírito ilumina a Palavra e nunca fala contra o que inspirou |
| “Só eu e minha Bíblia” | A interpretação pessoal vira a última instância | A Escritura reina e é lida com oração, com mestres, com a igreja e com a confissão pública |
O erro dos três caminhos é parecido. Em cada um, algo passa a ocupar o lugar de juiz que pertence ao Espírito Santo falando na Escritura (CFW I.X): a tradição independente, a nova palavra ou a minha própria opinião.
4. Três chaves para ler a Escritura
A Escritura é a regra suprema. Agora a pergunta é como essa regra ensina a igreja a ler.
1. Escritura interpreta Escritura
“A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura, esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.”
Confissão de Fé de Westminster I.IX
Um texto difícil não é lido isolado do restante da Bíblia. A Aula 1 já fez isso: Paulo leu Abraão em Gálatas 3, e nós lemos Gênesis com a explicação do apóstolo. Há um sentido verdadeiro do texto, e as aplicações, que podem ser várias, precisam nascer desse sentido.
2. Analogia da fé
A Bíblia inteira apresenta uma fé coerente. Pela analogia da fé, a interpretação de um versículo não pode contradizer o ensino claro do conjunto sobre Deus, Cristo, o evangelho e a vida cristã. Isso não obriga cada texto a repetir tudo; impede que uma leitura isolada destrua o que a Escritura ensina em outros lugares.
3. Dedução lógica e clara
A CFW I.VI diz que o conselho de Deus aparece tanto no que a Escritura declara expressamente quanto no que pode ser lógica e claramente deduzido dela.
- A palavra Trindade não aparece na Bíblia, mas a doutrina reúne o que a Escritura diz do único Deus e das três pessoas.
- Ninguém exige um versículo com a frase “mulheres podem participar da Ceia”. A conclusão decorre do ensino bíblico sobre a igreja e o sacramento.
Deduzir não é imaginar. Uma conclusão é legítima quando as premissas são bíblicas, o raciocínio é necessário e o resultado concorda com o conjunto da fé. Preferência pessoal e associação criativa não são dedução.
5. Por que a igreja confessa
Se a igreja lê com essas chaves, ela consegue dizer publicamente o que entende que a Bíblia ensina. É isso que uma confissão de fé faz.
Toda igreja ensina algum resumo da fé, mesmo quando diz não ter credo. A pergunta é se esse resumo será público, examinável e subordinado à Escritura.
Uma confissão registra o que a igreja entende que a Bíblia ensina. Ela ajuda a:
- ensinar;
- guardar a igreja de mudanças a cada semana;
- avaliar pregadores;
- prestar contas às gerações seguintes.
Ela não cria revelação nem torna verdadeira uma doutrina falsa. Registra limites bíblicos já testados e continua aberta ao exame da Palavra.
A Confissão sabe que pode errar
“Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e outra coisa.”
Confissão de Fé de Westminster XXXI.III
A própria Confissão diz que concílios podem errar. Um documento que se apresenta como auxílio e se submete à Escritura não pede o lugar da Escritura.
Mas falível não significa facultativo. No parágrafo anterior, a Confissão diz que as decisões dos concílios que estão de acordo com a Palavra devem ser recebidas “com reverência e submissão” (CFW XXXI.II). A igreja tem autoridade real, mas não absoluta.
6. A fé recebida e assumida
Única regra e sistema expositivo
Isso explica a linguagem da IPB. Sua Constituição chama as Escrituras de “única regra de fé e prática” e chama a Confissão de Fé e os Catecismos de “sistema expositivo de doutrina e prática”.
As duas expressões não competem:
- “Única regra” nomeia a fonte e o juiz: a Escritura.
- “Sistema expositivo” nomeia o resumo público adotado pela igreja: os Padrões de Westminster.
Receber e assumir
Vale para quem cresceu na igreja e para quem chegou há pouco. Ninguém começa do zero: a fé chega a nós pelo testemunho de outros, e a igreja não nasceu conosco. Mas também não basta repetir sem examinar. Recebemos uma herança, abrimos a Bíblia, aprendemos com a igreja, fazemos perguntas honestas e assumimos conscientemente a fé que confessamos.
Na IPB, os oficiais prometem lealdade aos Símbolos de Fé, e o Supremo Concílio entende esse voto como aceitação integral. Para os membros, entender pouco não é o mesmo que rejeitar conscientemente, e a igreja deve ensinar com paciência. Quando surge uma dúvida, o caminho é bíblico, pastoral e conciliar: estudar, apresentar as razões e conversar com quem foi chamado a pastorear.
Quatro verbos
- Receber é a disposição.
- Examinar é o método.
- Crer é o resultado do texto.
- Confessar é assumir com a igreja aquilo que reconhecemos na Palavra.
Para ir além
Dois livros sobre Escritura e confissão, do mais curto ao mais longo:
- Carl R. Trueman, O Imperativo Confessional (Monergismo). Cerca de 260 páginas. Por que toda igreja tem um credo, escrito ou não, e por que é melhor que ele seja público.
- Matthew Barrett, Somente a Escritura: a autoridade da Palavra de Deus (Cultura Cristã). Cerca de 400 páginas. O que os reformadores ensinaram sobre a autoridade da Bíblia.
Próxima aula
A Confissão começa pela Escritura, apresenta quem Deus é e então trata do seu decreto eterno. O decreto de Deus, a graça soberana e a ordem da salvação são o tema da Aula 3.
Recebemos a Palavra com avidez, examinamos todo ensino pela Escritura e confessamos a fé com a igreja.